O Último Voo do Amor Proibido
O céu estava salpicado de cores que dançavam em liberdade pelo ar. No Vale dos Ventos, onde as borboletas se reuniam em grandes revoadas, havia regras inquebráveis. As cores de suas asas não eram apenas ornamentos, mas marcas de pertencimento, sinais de um destino traçado antes mesmo do primeiro voo. As brancas jamais poderiam tocar as vermelhas e pretas. Era uma lei antiga, gravada nas asas do tempo.
Entre as flores silvestres, ela surgiu. Suas asas brancas, delicadas como pétalas de neve, refletiam a luz do sol como um suspiro de pureza. Seu voo era suave, quase etéreo, como se carregasse em si a fragilidade do mundo. Mas, sob aquele véu imaculado, um coração pulsava, inquieto. Foi então que o viu.
A borboleta de asas vermelhas e pretas voava solitária, afastado das outras. Suas cores eram um grito de paixão e mistério. Cada batida de suas asas parecia ecoar um chamado antigo, um convite silencioso ao desconhecido. Quando seus olhares se cruzaram, o ar ao redor deles pareceu parar. A brisa cessou, e o tempo se dobrou em silêncio.
Sabiam que não deveriam se aproximar. Mas o amor não reconhece barreiras. É uma chama que consome, indiferente às ordens do mundo. Em segredo, encontraram-se entre os campos floridos. Cada encontro era um fôlego roubado do destino, uma dança que desafiava as leis que os cercavam.
Contudo, as borboletas do vale vigiam. Quando o rumor daquele amor proibido se espalhou, os ventos carregaram consigo o peso da condenação. Ela, a borboleta branca, foi arrancada do céu por suas próprias irmãs, que não podiam permitir tal afronta à tradição. Arrastaram-na de volta ao coração do vale, onde os anciões julgaram-na culpada.
Separada de seu amor, suas asas começaram a perder o brilho. O branco antes radiante se tornou pálido, como um lenço esquecido ao sol. Ela ainda voava, mas seu voo não tinha mais leveza. Seu olhar se voltava para o horizonte, onde esperava, em vão, ver o reflexo das asas vermelhas que amava.
O tempo passou. O vale floresceu e murchou, em ciclos que a borboleta branca não mais notava. Certa manhã, ao sentir a última brisa de primavera, pousou sobre uma flor que se fechava. Suas asas, cansadas, não mais se abriram. Seu coração, já quebrado, silenciou.
No fim, o amor que não pôde escolher tornou-se seu eterno refúgio. Ela morreu como vivera — presa às leis que não compreendia. Mas nas pétalas daquela flor, quando o sol a tocou, nasceu uma nova cor: uma mancha vermelha sobre o branco, como uma lembrança de que o amor, mesmo impossível, deixa suas marcas no mundo.
E no horizonte, um par de asas vermelhas e pretas continuava a voar sozinho.
Um conto de difelipes
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