Déjà-vu - 1
Sugestão de música para leitura: Cardigan - Taylor Swift
Capítulo 1: O Gosto do Primeiro Café
Ele não sorria, mas havia uma serenidade em seus movimentos. Como se cada detalhe daquela manhã já estivesse escrito em algum lugar. Como se soubesse exatamente o que viria a seguir.
Do quarto, a voz de Rafael ecoou com preguiça:
— Amor, coloca açúcar no meu?
Jeong-ho não respondeu. Apenas pegou o pote de açúcar e despejou uma colher generosa na xícara da direita. A mesma xícara de sempre. Azul, com uma lasca imperceptível na borda. A mesma que Rafael usava desde que se mudaram juntos, há seis meses.
Entregou a xícara ao namorado, que agora se espreguiçava no sofá, os cabelos bagunçados e o sorriso fácil. Rafael era o tipo de carioca que parecia ter nascido com o sol dentro do peito. Falava alto, ria com o corpo inteiro, e tinha uma mania irritante de cantarolar sambas antigos enquanto lavava a louça.
Jeong-ho, por outro lado, era silêncio. Um silêncio que não incomodava, mas que escondia mundos. E naquele momento, enquanto observava Rafael beber o primeiro gole de café, murmurou:
— Já aconteceu isso antes.
Rafael ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Essa manhã. Você pedindo açúcar. A xícara azul. O samba que você vai cantar daqui a pouco. Eu já vivi isso.
Seria apenas uma coincidência? Ou havia algo mais profundo ali — uma dobra no tempo, um eco de vidas passadas?
Rafael riu, achando graça.
— Você tá com essas coisas de déjà-vu de novo?
Jeong-ho não respondeu. Mas seus olhos estavam fixos na janela, como se procurassem uma saída para aquela sensação de repetição. Não era a primeira vez que sentia isso. E, curiosamente, sempre acontecia com Rafael. Nunca sozinho. Nunca com outras pessoas.
Talvez fosse o amor. Talvez o amor fosse isso: uma sucessão de momentos que parecem eternos, porque são intensos demais para caber em apenas um tempo.
Jeong-ho não parecia assustado. Havia uma melancolia suave em sua expressão, como quem aceita o mistério sem precisar decifrá-lo.
— Você lembra da primeira vez que a gente se viu? — perguntou, ainda olhando pela janela.
— Claro. Foi naquela exposição de fotografia, lembra? Você tava parado na frente da foto do mar de Busan. Eu cheguei do seu lado e falei: “Bonito, né?”
Jeong-ho sorriu. Mas não era um sorriso qualquer. Era o tipo de sorriso que carrega saudade.
— Eu lembro de você dizendo isso. Mas também lembro de você dizendo isso em outro lugar. Em outro tempo.
Será que o amor verdadeiro é sempre um déjà-vu? Será que, quando duas almas se encontram, elas apenas se reconhecem?
Rafael se levantou, foi até Jeong-ho e o abraçou por trás. Encostou o rosto em seu ombro e sussurrou:
— Se for um déjà-vu, que seja eterno.
E naquele instante, o tempo pareceu parar. Não por magia, mas por afeto. Porque há momentos em que o mundo inteiro se resume a um abraço, a um cheiro de café, a uma lembrança que insiste em voltar.
Talvez o amor seja isso mesmo. Um ciclo que não se explica, mas se sente. Um déjà-vu que vale a pena repetir.
Instagram: @difelipes
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