O caos que quase o matou

Brasil, 30 de janeiro de 2025

Felipe,

Sei que essa carta talvez chegue tarde demais, mas ainda assim, escrevo. Não sei se a lerá com o coração aberto ou se a queimará antes mesmo que minhas palavras alcancem seus olhos. Mas se, por algum motivo, decidir continuar, saiba que essa é uma carta de um velho conhecido seu: o caos que quase o matou.

Eu o devorei aos poucos, não como uma tempestade que destrói tudo de uma vez, mas como uma erosão silenciosa, cavando dentro de você até que nada mais restasse além do eco dos seus próprios gritos. Você me carregava como uma segunda pele, como um espectro sussurrando em seu ouvido que o fim era a única resposta. E você acreditou em mim, não foi? Nos dias em que o peso da existência esmagava seu peito, nos momentos em que as sombras eram mais acolhedoras do que a luz, você acreditou.

Eu estive lá quando o sono se tornou um luxo e a paz, uma mentira distante. Eu o vi sufocar em suas próprias angústias, vi seu corpo resistir enquanto sua mente implorava por descanso. Eu o puxei para o fundo, e, por um instante, quase venci. Quase fiz com que você acreditasse que não havia mais saída, que a destruição era inevitável.

Mas então algo aconteceu. Talvez tenha sido a fagulha de uma lembrança, um vislumbre do que poderia ser. Talvez tenha sido o eco de uma risada que não queria esquecer ou a mão de alguém que se recusou a soltá-lo. Talvez tenha sido você mesmo, cansado demais para continuar afundando. Eu senti quando sua resistência nasceu, quando sua pele começou a rejeitar minha presença. Senti quando você decidiu lutar, mesmo que ainda não soubesse como.

Agora, escrevo porque sei que ainda carrego resquícios dentro de você. Sei que, às vezes, meu sussurro ainda se faz ouvir, que o medo de que eu retorne o mantém alerta. Mas saiba disto: você sobreviveu a mim. Você me enfrentou, e, embora eu ainda assombre seus passos, sou apenas isso agora—um fantasma do que um dia fui. Você me venceu uma vez, e se precisar, vencerá de novo.

Com o peso daquilo que fomos,
O caos que quase o matou.

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