Os Fragmentos da Essência
Um conto de difelipes
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As luzes da cidade piscavam com uma pressa que refletia a agitação dos dias modernos. Alice sentava-se em um banco de praça, observando as pessoas passarem. Cada uma parecia envolta em uma bolha de perfeição digital: celulares erguidos como escudos, filtros escondendo olheiras, vidas editadas e curadas como obras de arte para aplausos virtuais.
Ela suspirou, deslizando os dedos sobre a tela do celular. O perfil de Matheus, com quem trocara mensagens por semanas, aparecia. Ele parecia perfeito: sorriso alinhado, viagens incríveis, legendas profundas. Mas, na última mensagem, ele a acusara de ser "distante demais". Alice relia o texto pela terceira vez, tentando entender como algo tão superficial se tornara tão complicado.
— As pessoas se tornaram exigentes demais... — murmurou para si mesma.
Ao seu lado, uma senhora lia um livro. O contraste era gritante. Alice quase perguntou o que ela lia, mas decidiu permanecer em silêncio. Não queria parecer invasiva, uma ironia em um mundo onde expor-se era regra.
Enquanto isso, um casal caminhava à frente. O homem parecia falar rápido, gesticulando em direção à mulher, que apertava os lábios e desviava o olhar. Alice captou fragmentos da conversa:
— Você não entende? Eu quero tudo com você agora! Por que esperar?
— Porque está me sufocando! — a mulher respondeu, com um tom de exaustão.
Alice desviou o olhar, sentindo-se uma intrusa. Pensou em suas próprias experiências. Quantas vezes sentira esse mesmo sufoco? Ou, pior, a indiferença de quem parecia ocupado demais exibindo sua "essência" para os outros, mas ignorando a conexão real?
De repente, seu celular vibrou. Era outra notificação de rede social. Uma amiga havia postado sobre um encontro romântico, com um filtro dourado emoldurando os sorrisos. "Perfeição", alguém comentou. Alice sabia que aquela amiga chorara por horas no banheiro antes de sair, com medo de não ser boa o suficiente. Ela sabia, porque ouvira o desabafo em uma ligação semanas atrás.
O contraste entre o mundo digital e o real era esmagador. A estética havia se tornado a moeda de troca. Se você não tinha "likes", quem era você? Se não era "belo", merecia ser visto? O amor era como uma moeda descartável: ou perfeito e instantâneo, ou irrelevante. E, muitas vezes, as pessoas confundiam o brilho do ouro com a luz de uma alma verdadeira.
— Desculpe-me, mas você está bem? — perguntou a senhora ao lado, interrompendo seus pensamentos.
Alice hesitou, mas sorriu. — Acho que sim... Só tentando entender por que tudo parece tão... desconectado.
A senhora fechou o livro e inclinou a cabeça. — É a pressa. A pressa de ter tudo. Amor, sucesso, felicidade. Mas ninguém quer plantar nada. Querem a árvore já cheia de frutos, sem esforço.
Alice refletiu sobre isso enquanto a mulher continuava:
— Um dia, as pessoas vão perceber que o que dura é o que exige paciência. Que a essência está no que não se vê imediatamente, mas no que cresce com o tempo. Até lá, quem não se adapta a essa correria fica para trás... ou encontra outros como ela.
Alice sentiu o peso das palavras. Pensou em Matheus, nos amores apressados, nos "likes" que preenchiam vazios temporários. Talvez a resposta não estivesse em acompanhar a pressa do mundo, mas em desacelerar, aceitar a imperfeição e focar no que era real.
Desligou o celular, guardando-o no bolso. Por enquanto, o mundo virtual podia esperar.
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