Entre Dobras, Flores e Correntes
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O papel repousava sobre a mesa, branco, liso, sem mácula. Naquele instante, era apenas um fragmento inerte, mas suas possibilidades eram infinitas. Eles estavam ali, lado a lado, com dedos trêmulos e risos hesitantes, dobrando juntos o primeiro origami.
— Parece um pouco torto — ela disse, rindo ao apontar a asa de um pássaro que se inclinava mais para um lado.
— É o nosso pássaro, então ele pode ser como quiser — ele respondeu, e seus olhos brilharam como a luz do amanhecer sobre um campo orvalhado.
Enquanto dobravam, riam e corrigiam pequenos erros, algo maior e invisível se formava entre eles. O origami, com suas dobras e vincos, era uma metáfora perfeita para aquele começo: frágil, delicado e cheio de intenções. A cada dobra, uma promessa; a cada vinco, um segredo partilhado.
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Os anos se passaram, e o origami se tornara uma lembrança guardada em uma caixa de madeira, como um relicário. No quintal, uma cerejeira erguia-se imponente. Fora plantada no primeiro ano de amor, quando decidiram construir uma vida juntos.
Na primavera, as pétalas rosadas dançavam com o vento, caindo suavemente como suspiros. Sob sua sombra, eles sentavam-se lado a lado, dividindo silêncios que não precisavam ser preenchidos.
— A cerejeira está linda este ano — ela comentou, passando os dedos pelas flores.
— É porque está em casa. Assim como nós. — Ele entrelaçou seus dedos nos dela, e por um momento, tudo parecia eterno.
A árvore simbolizava aquilo que o origami não poderia: a solidez do amor que resistira às estações. Cada raiz, um compromisso. Cada galho, uma memória. Mas o que ambos não perceberam era que, no âmago da cerejeira, algumas folhas começavam a secar.
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O inverno chegou com a força de um rio em fúria. As flores da cerejeira caíram, e a árvore parecia desolada, exposta ao frio. Dentro da casa, o silêncio tornou-se mais pesado, não mais um conforto, mas um peso.
— Não sei quando deixamos de nos entender — ela disse uma noite, encarando o reflexo distorcido na água de uma xícara de chá esquecida.
Ele tentou responder, mas as palavras escorriam entre seus dedos, como a água que corria na pia enquanto ele lavava os pratos.
Um dia, após uma discussão que nenhum dos dois lembraria em detalhes, ele saiu. Ela ficou. E a chuva começou a cair.
Quando ele voltou, horas depois, encontrou-a no quintal, observando a água acumulada em poças ao redor da cerejeira. As raízes estavam parcialmente submersas, como se a própria natureza compartilhasse sua tristeza.
— Talvez... seja hora de deixar o rio seguir seu curso — ela disse, sem olhar para ele.
Ele assentiu, sentindo as gotas frias da chuva misturarem-se às lágrimas que não permitia cair.
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Quando tudo terminou, ela colocou o velho origami na mesa. Olhou para ele por um longo tempo antes de decidir guardá-lo novamente na caixa. A cerejeira, agora sozinha, enfrentaria as estações futuras.
E a água, como sempre, seguiria seu caminho, levando consigo as dores, mas deixando, talvez, espaço para novas dobras, novas árvores e novos cursos a percorrer.
Um conto de difelipes
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