A Liberdade de Selena

Selena jogava água na calçada de casa quando, sem querer, molhou uma mariposa. Linda. As asas em tons de marrom tinham o que parecia ser um olho na base. 
Selena viu a mariposa se debater com as asas molhadas, tentando voar, mas não conseguia. 
A mariposa parecia estar com medo. Ela se debatia e os poucos movimentos que dava para a frente eram como uma pequena vitória. 
Selena, com pena da mariposa, a ajudou. Pegou-a pelas asas e a colocou em cima do pequeno muro que tinha ao redor da calçada. A mariposa ainda se debatia, na tentativa estúpida de secar as asas.

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Maurício chegou, as botas cheias de lama sujavam a calçada que Selena acabara de lavar. Sem pena, sem dó, entrou para dentro da casa, e à força tomou Selena. No desejo, na vontade. Os sentidos de Maurício estavam apenas focados no prazer de sua carne. 
A casa cheirava a mofo e sabão barato, uma mistura opressiva que parecia grudar nas paredes amareladas. A luz que entrava pela janela era fraca, mal alcançava os cantos. Para Selena, aquele ambiente era sufocante, como se o próprio ar quisesse aprisioná-la. Selena, acostumada com aquilo, e fragilizada, apenas deixou. Uma lágrima caiu do seu olhar. Em seu interior, queria ser livre, como a mariposa.
Quando Maurício a soltou, deixando-a livre do peso do seu corpo, Selena levantou e se lavou. A água que percorria seu corpo, limpando, levando junto o sangue, as lágrimas, o sêmen do homem que seu pai a forçou casar e a van-esperança de um dia ser livre. Os gritos silenciosos não eram ouvidos por Maurício, nem pelos vizinhos. Ela chorava. Em silêncio, ela desejava fugir.

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Quando saiu, o céu estava começando a escurecer. Procurou em cima do muro a mariposa, mas não a encontrou. Desceu a escadaria de concreto que levava até à casa, na tentativa de vê-la, mas não a encontrava.
Quando voltou a subir as escadas, Selena notou um pedaço da asa da mariposa presa em uma fenda no sexto degrau. Percorreu os olhos por toda a escada, e no canto direito da entrada a mariposa estava. Esmagada. Maurício a pisoteou quando chegou com suas botas sujas de lama, como sempre fazia com tudo o que considerava frágil e insignificante. Partiu a asa direita em duas. O vento levou o pedaço solto que se prendeu na fenda do degrau da calçada. 
Selena chorou.
Pegou a mariposa e a enrolou em um tecido branco quadrado, então entrou.

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Depois que Maurício saiu para o trabalho, Selena tomou coragem. Pegou o pano com a mariposa, olhou para ela e decidiu ir embora. A qualquer momento, Selena poderia ser a próxima mariposa morta, pisoteada por Maurício. Ela arrumou a bolsa com poucos pertences: algumas roupas, uma foto de sua mãe, um caderno onde escondia seus sonhos e o pano com a mariposa. Quando colocou o pano dentro da bolsa, Selena hesitou por um instante. Olhou ao redor da casa, onde cada objeto parecia gritar a dor que ela suportou ali. A cozinha apertada, o fogão que quase não funcionava, a cama de madeira áspera onde tantas lágrimas haviam sido derramadas. Mas era hora de ir. Selena saiu porta afora, caminhando sem olhar para trás. Caminhou até a estrada com passos rápidos, mas o coração batia forte, quase explodindo. Selena se foi para a capital onde Maurício nunca poderia ir atrás. Nunca iria encontrá-la. 

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Quando Maurício chegou, escancarando a porta, procurou Selena por toda a casa para satisfazer as suas próprias vontades. Como não a encontrou, saiu à procura dela. Bravo. Falando as maiores atrocidades. Amaldiçoando Selena. E foi pensando nisso que Maurício, ao atravessar a mata, morreu, atingido por uma bala perdida de um caçador que ali estava.

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E assim, Selena, outrora triste, sozinha e angustiada, estava livre. Livre da brutalidade do seu opressor. Livre da prisão em que foi colocada. Livre do pote de vidro em que estava. A mariposa voou pelo céu azul e pousou em uma ilha, a capital da Bahia. Hoje, Selena pode sorrir, esbanjar o brilho do seu sorriso para todos. O sorriso da liberdade. A liberdade de Selena.


difelipes

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